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Ideologização paranoica

Por: Nelson Luiz Pereira

28/01/2023 - 05:01

Num café com um amigo, renomado escritor e colunista catarinense, pusemos nossas indignações e satisfações sobre a mesa. Abrimos a Caixa de Pandora de nossas produções literárias.

Uma de minhas curiosidades foi saber dele de que forma reagia, emocionalmente, às eventuais críticas infundadas e, por vezes, maliciosas e agressivas, vindas dos leitores.

Jamais imaginava aquela resposta. Disse-me que hoje se tornou chato escrever, pois, o leitor mediano não se satisfaz com a mensagem, ele precisa saber, necessariamente, ou desesperadamente, o lado ideológico de quem escreve.

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Me revelou que em meados de 2022, resolveu fazer uma corajosa experiência. Mediante a publicação de dois artigos, no espaço de um mês, ele mediu e buscou entender, com acuidade, a essência das inevitáveis críticas.

Propositalmente, um dos artigos revelava, sem muito esforço de interpretação, que o autor se enquadrava como de direita. Então, por parte dos leitores de esquerda, foi rotulado de nazifascista.

O teor do outro artigo, fazia com que ficasse evidente a posição de esquerdista. Por conseguinte, dos leitores de direita, recebeu o estigma de comunista. Ao retomar seu estilo original, ou seja, expressar suas ideias textuais fora das duas mórbidas bolhas ideológicas, teve uma decepcionante surpresa.

Foi impiedosa, severa e brutalmente ‘coiceado’ pelos dois lados, e com muito mais intensidade. Deduziu que se continuasse alternando suas produções textuais, ora para direitistas e ora para esquerdistas, levaria, curiosamente, menos ‘pau’ do que produzir fora das duas paranoicas bolhas.

Não entendi o porquê daquela constatação, e ele foi didático na explicação: “esses leitores ficaram sem referência.” Algo como, entre comer qualquer coisa e morrer de fome, come-se o que vier. Foi o que entendi, e me fez todo sentido.

Me vi no mesmo barco, embora eu não tenha tido a ousadia dele. Entretanto, confessei a ele que também tenho levado “pau” dos dois lados. Ora “pau” grosso e curto, ora fino e comprido, com o diferencial de que, por aqui, meus algozes mandam recado, mantendo-se no anonimato.

Ele gargalhou e fez menção a um artigo meu de algum tempo atrás, mas que não tinha plena lembrança dos detalhes. O ajudei a recobrar a memória relatando que na minha cidade, um indivíduo ‘caixa alta’ teria me aplicado, certa feita, o binário cheque mate: “você é de esquerda ou direita?”

Eu teria respondido que era de direita, esquerda, centro, centro-direita, centro-esquerda, centro-direita-esquerdante, centro-esquerda-direitante, e que minha cor dominante era a amarela.

O ‘caixa alta’ arrematara sobressaltado que detestava a cor amarela. Bem – teria dito eu – então você é um xantofóbico. Ao que o levou evadir-se bruscamente, deixando-me a pensar com meus botões: ‘ele amarelou’. Encerramos nosso café literário com intensas e prazerosas gargalhadas.

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Nelson Luiz Pereira

Administrador, escritor, membro do Conselho Editorial do OCP e colunista de opinião e história.