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Duas lembranças da infância podem estar ligadas a uma vida adulta mais feliz, diz estudo; veja quais

Foto: Magnific

Por: Elisângela Pezzutti

04/09/2026 - 16:09

As experiências vividas nos primeiros anos de vida podem permanecer na memória por muito tempo e, segundo uma pesquisa, também estar relacionadas à saúde na idade adulta. Um estudo publicado na revista científica Health Psychology encontrou uma associação entre as lembranças da relação com os pais na infância e indicadores de saúde física e mental observados décadas depois.

A pesquisa foi realizada por William J. Chopik e Robin S. Edelstein, da Michigan State University e da University of Michigan, nos Estados Unidos. Os pesquisadores analisaram dados de mais de 22 mil participantes de estudos que acompanham aspectos relacionados ao desenvolvimento, à saúde e à aposentadoria da população americana.

A investigação procurou entender se a maneira como os participantes se lembravam da convivência com os pais durante a infância estava relacionada às condições de saúde apresentadas posteriormente.

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Os resultados apontaram que aqueles que descreviam uma infância com mais carinho e afeto apresentavam menos sintomas de depressão e uma menor ocorrência de doenças crônicas ao longo da vida. Entre as diferentes experiências avaliadas, duas lembranças apareceram de maneira particularmente associada a melhores indicadores de saúde mental e bem-estar na velhice.

O que as lembranças da infância podem revelar sobre a vida adulta?

As memórias analisadas pelos pesquisadores estavam relacionadas principalmente à qualidade do vínculo estabelecido entre crianças e seus pais. A percepção de ter crescido em um ambiente acolhedor apareceu associada a resultados mais favoráveis muitos anos depois.

Afeto recebido durante os primeiros anos de vida

Uma das experiências que mais se destacou foi a lembrança de ter recebido carinho, atenção e cuidado dos pais, principalmente da mãe.

Os adultos que tinham essa percepção apresentaram menos sintomas depressivos e menor incidência de doenças crônicas. A associação continuou sendo observada mesmo depois que os pesquisadores consideraram fatores como idade e condição socioeconômica.

Na prática, os dados indicam que pessoas que guardavam lembranças de uma relação parental mais afetuosa tendiam a apresentar melhores indicadores de saúde posteriormente, com destaque para os aspectos relacionados ao bem-estar psicológico.

Isso não significa, porém, que o afeto recebido na infância seja capaz de determinar sozinho as condições de saúde de alguém no futuro. O estudo identificou uma associação entre as variáveis analisadas, e não uma relação de causa e efeito.

O conforto oferecido quando surgiam problemas

Outra lembrança que apareceu relacionada a melhores resultados foi a percepção de ter contado com os pais em momentos difíceis.

Participantes que recordavam situações nas quais receberam compreensão, conforto e apoio diante de problemas apresentaram melhores indicadores de saúde física e mental na vida adulta.

Para os pesquisadores, experiências dessa natureza podem ter relação com a forma como uma pessoa desenvolve recursos emocionais para enfrentar situações adversas. Ainda assim, os resultados não permitem afirmar que o acolhimento parental seja, isoladamente, responsável por uma melhor condição de saúde décadas depois.

A sensação de segurança começa dentro de casa

Na avaliação da psicóloga Sarah Karounis, os resultados ajudam a chamar atenção para o papel que as relações familiares desempenham durante o desenvolvimento.

“O fato de adultos que se lembram de ter recebido carinho, cuidado e acolhimento dos pais apresentarem menos sintomas depressivos e menos doenças crônicas reforça a importância dos vínculos familiares e das experiências afetivas durante o desenvolvimento”, afirma.

Para a especialista, a pesquisa também permite refletir sobre a importância das experiências cotidianas. Uma infância marcante não é construída necessariamente por acontecimentos grandiosos, mas também pelas sensações experimentadas repetidamente dentro de casa.

“Acredito que o estudo também nos faz refletir que não são apenas os grandes acontecimentos que ficam na memória de uma criança, mas, principalmente, a forma como ela se sentia dentro de casa”, acrescenta.

De acordo com Sarah, ter uma pessoa de confiança por perto, capaz de ouvir, acolher e transmitir segurança, pode ajudar a criança a desenvolver uma percepção maior de proteção e confiança para enfrentar situações difíceis.

“Ter alguém que ofereça segurança, escute, acolha e esteja presente nos momentos difíceis pode contribuir para que a criança desenvolva uma maior sensação de segurança e consiga lidar melhor com os desafios ao longo da vida”, destaca.

A psicóloga reforça, entretanto, que os resultados devem ser interpretados com cuidado. Uma infância marcada por afeto pode estar associada a melhores indicadores de saúde, mas não representa uma garantia de que a pessoa terá uma vida adulta livre de problemas físicos ou emocionais.

Estar perto não é o mesmo que estar disponível

Outro aspecto apontado por Sarah Karounis é que a presença dos pais não deve ser medida apenas pelo tempo em que eles permanecem no mesmo espaço que os filhos.

“Estar presente não significa apenas estar fisicamente no mesmo ambiente, mas realmente participar da vida da criança, conversar, ouvir, brincar, demonstrar carinho e oferecer apoio quando ela estiver passando por alguma dificuldade”, explica.

Essa questão ganha ainda mais relevância em um cenário no qual celulares, televisão, videogames e outros recursos tecnológicos fazem parte da rotina de muitas famílias.

“Celulares, televisão, jogos e outras tecnologias podem ocupar grande parte do tempo da família e diminuir os momentos de interação entre pais e filhos”, afirma.

Para a especialista, isso não significa que os recursos tecnológicos precisem ser eliminados. O desafio está em evitar que eles ocupem o espaço destinado à convivência e ao contato entre pais e filhos.

“A tecnologia faz parte da realidade das crianças e não precisa ser vista apenas como algo negativo, mas não deve substituir o contato humano e a convivência familiar”, diz.

São as pequenas experiências que podem permanecer

A construção de boas lembranças não depende necessariamente de grandes passeios, presentes ou acontecimentos extraordinários. Segundo Sarah, momentos corriqueiros da rotina também podem ter um papel importante na formação dos vínculos.

Conversar durante uma refeição, perguntar à criança como foi o dia, brincar por alguns minutos ou simplesmente parar para ouvi-la são atitudes que podem fortalecer a relação familiar.

“Pequenos momentos do dia, como fazer uma refeição juntos, conversar sobre como foi o dia, brincar ou simplesmente estar disponível para ouvir a criança, podem se transformar em lembranças importantes no futuro”, destaca.

A psicóloga também diferencia a disponibilidade emocional dos recursos materiais oferecidos à criança. Ter acesso a presentes e boas condições financeiras não substitui necessariamente a sensação de ser acolhido e ouvido por quem exerce um papel importante na sua vida.

“Mais do que oferecer presentes ou recursos materiais, estar emocionalmente disponível pode ajudar a criança a se sentir amada, segura e acolhida”, finaliza.

O estudo, portanto, reforça a importância das relações construídas durante a infância e mostra que algumas experiências familiares podem permanecer associadas ao bem-estar mesmo muitos anos depois. Embora as lembranças positivas não determinem o futuro de uma pessoa, os resultados indicam que carinho, apoio e segurança podem fazer parte de uma infância cujas marcas permanecem ao longo da vida.

*Com informações da Revista Crescer

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Elisângela Pezzutti

Graduada em Comunicação Social pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Atua na área jornalística há mais de 25 anos, com experiência em reportagem, assessoria de imprensa e edição de textos.