Em uma sociedade em que placas, documentos, aplicativos, receitas médicas e contratos fazem parte da rotina, não saber ler e nem escrever pode significar depender do outro para tarefas simples e abrir mão, muitas vezes em silêncio, da própria autonomia. Esta é a reflexão trazida pelo Dia Mundial da Alfabetização, celebrada no dia 8 de setembro.
A frase “Eu sei falar, mas não sei ler” carrega uma contradição que diz muito sobre o Brasil: pessoas que se comunicam, trabalham, criam filhos, circulam pela cidade, fazem compras e constroem suas próprias histórias, mas que, diante de uma palavra escrita, podem se sentir incapazes, inseguros ou dependentes.
Para quem não sabe ler, ou lê com muita dificuldade, ações consideradas banais podem se transformar em obstáculos cotidianos. E é justamente aí que o analfabetismo deixa de ser apenas uma questão educacional e passa a ser também uma questão de dignidade, cidadania e autonomia.
Com o intuito de transformar esta realidade nasceu o Programa de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos do Instituto Yduqs, hoje com mais de 20 unidades em todo o país, com cerca de 100 educadores envolvidos e mais de 2.500 alunos formados.
De acordo com a docente das Licenciaturas e coordenadora de uma das unidades do Programa de Alfabetização do Instituto Yduqs, na Estácio, Laís Lira, muitas histórias vividas em sala de aula mostram que alfabetizar vai muito além de ensinar alguém a reconhecer letras e formar palavras.
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“Em uma sociedade letrada, na qual atividades aparentemente simples exigem conhecimentos de leitura e escrita para serem realizadas, a nossa metodologia de ensino tem o objetivo de trazer a esse aluno, que não teve acesso à escolarização ou precisou interromper seus estudos ao longo da vida, uma alfabetização funcional e que gera, a cada encontro, autonomia para resolver problemas cotidianos, como também, para minimizar sentimentos de dependência e exclusão”, explica.
Muitas pessoas desenvolvem estratégias para sobreviver em um mundo escrito. Pedem ajuda para identificar um endereço. Decoram o caminho até determinado lugar. Reconhecem embalagens pelas cores. Guardam documentos sem saber exatamente o que está escrito neles. Pedem a alguém de confiança para ler uma mensagem ou preencher um formulário. Por trás de cada dificuldade pode existir uma história marcada por desigualdades: a necessidade de trabalhar desde cedo, a falta de acesso à escola, a evasão escolar, a pobreza, a distância dos serviços educacionais ou uma trajetória escolar que não conseguiu garantir a aprendizagem necessária.
“Diante de tantos cenários difíceis, cada palavra decifrada, cada mensagem compreendida e cada documento que passa a ser lido de forma independente representa uma conquista que ultrapassa os limites da sala de aula. A alfabetização, nesse contexto, torna-se um instrumento de dignidade, pertencimento e transformação, reafirmando que nunca é tarde para aprender e que o acesso à leitura e à escrita é também uma forma de ampliar possibilidades e garantir o exercício pleno da cidadania”, acrescenta a coordenadora.
O medo de revelar que não sabe ler pode fazer com que uma pessoa evite determinadas situações, esconda suas dificuldades ou deixe de buscar um serviço por receio de ser julgada. Em vez de perguntar, muitas vezes prefere permanecer em silêncio.
É nesse cenário que a alfabetização de jovens e adultos ganha uma dimensão que vai muito além da sala de aula. Aprender a ler não significa apenas juntar letras e formar palavras. Significa poder compreender uma informação sem depender de outra pessoa. Saber o que está sendo assinado. Ler uma mensagem enviada pelo filho. Identificar o nome de um medicamento. Entender uma notícia. Escolher. Questionar. Decidir. Significa ter mais controle sobre a própria vida. É justamente assim que dona Vanda Maria de Araújo Lima, de 62 anos, hoje, se sente, conquistando sua autonomia e independência.
“É muito bom a gente olhar para alguma coisa na nossa frente e saber o que está escrito. Se eu pegar uma receita médica, por exemplo, se for letra de forma, eu consigo ler tudinho! É muito bom passar por um lugar por onde a gente já passou antes, olhar para as coisas que já viu e, hoje, conseguir saber o que está escrito. É uma sensação muito boa!”, celebra ela dizendo ainda que todo mundo é capaz, basta acreditar e correr atrás.
“Eu também tenho minhas dificuldades, mas não precisa ficar cismado achando que a pessoa vai para a escola e não vai aprender. Aprende, sim! É só se dedicar que a gente consegue. Eu comecei praticamente sem saber nada e, graças a Deus, hoje eu sei ler o que está na minha frente. É muito boa essa sensação de olhar para uma coisa e saber o que está escrito”, comemora.
“Precisamos construir uma sociedade em que ninguém precise se esconder, garantindo que a pessoa que aprendeu a falar, trabalhar, cuidar, sonhar e sobreviver também tenha a oportunidade de decifrar as palavras que organizam o mundo ao seu redor garantindo à ela muito mais sentido e oportunidades”, finaliza Laís.