Como é de praxe em toda viagem, o Brasil se despediu de Glória Maria. Para mim, uma glória do jornalismo. Como ela mesma declarara em uma de suas entrevistas para o Roda Viva da tvcultura, “tudo o que eu quis fazer, eu fiz. Eu queria viajar. O que eu mais queria era percorrer o mundo.
Eu percorri. Eu vivi amores maravilhosos, e até casei.” Glória fez, nessa quinta-feira (2), sua última viagem. Foi sozinha, não se importando, nem um pouco, com a aparência, como deveria se vestir ou como deveria se comportar, porque a vida foi só sua, ninguém pagou suas contas, tampouco souberam de seus problemas.
Foi, se sentindo bem consigo, porque sabia que um dia iria morrer e ninguém morreria por ela. Foi com seu próprio jeito. Livre, soberana e intransferível. Glória não mostrou o mundo por meio do jornalismo. Ela mostrou o jornalismo para o mundo. Não transmitia informações, e sim, incorporava os contextos desprovida de roteiros.
Voava ou se jogava de cabeça. Por isso, a televisão foi pequena para ela, como pequeno também foi o mundo. Essa filha de uma dona de casa e de um alfaiate, cobriu com competência, beleza, alegria e liberdade, tudo o que se possa imaginar, desde guerras até sua própria negritude, quando sustentou que “nada blinda preto de racismo, ainda mais a mulher preta.
Nós somos mais abandonadas, discriminadas. Você tem que aprender a se blindar da dor. Se você for esperar o blindamento universal, você estará perdida.” Essa autêntica e admirável mulher, despiu o mundo, porque não fazia jornalismo, ela era o jornalismo em essência.
Glória Maria deixa para mim, o seu jeito espartano de encarar as provações e provocações da vida e do jornalismo. Permanece nítida em minha memória, sua entrevista para Pedro Bial em 2020.
Ela relembrava certa cobertura de uma fala do então presidente João Figueiredo, amante de cavalos, o qual afirmava que para defender a democracia ele batia, prendia e arrebentava.
Ao que Glória teria rebatido: “Isso que o senhor citou não existe mais.” Foi quando a ‘ogrice equina’ do mandatário subitamente se manifestou: “tirem essa neguinha daqui.” Por essa e outras, entre todos os legados que ela deixa ao jornalismo de verdade, esse foi o da resistência. ‘Glória, adeus!’ Muita luz em sua viagem.