O manezinho Gustavo Kuerten chegou aos 50 anos nesta quinta-feira (10). Nascido em Florianópolis, no dia 10 de setembro de 1976, o ex-tenista construiu uma das trajetórias mais marcantes do esporte brasileiro, passando de uma promessa pouco conhecida a número 1 do mundo. Uma vida marcada por grandes conquistas mas, sobretudo, por ações admiráveis e um carisma inigualável.
A história de Guga no tênis começou ainda na infância e foi marcada por uma dor familiar. Aos 8 anos, ele perdeu o pai, Aldo Kuerten, vítima de um infarto durante uma partida de tênis em Curitiba. Antes de morrer, Aldo havia pedido ao treinador Larri Passos que acompanhasse a formação esportiva do filho. A parceria entre os dois seria decisiva para a carreira do catarinense.
O momento que mudou a trajetória de Guga aconteceu em Roland Garros, em 1997. Naquele ano, ele chegou ao Grand Slam francês ocupando apenas a 66ª posição do ranking mundial e ainda não tinha conquistado um título profissional.
Em Paris, porém, Kuerten derrotou adversários de destaque, entre eles Thomas Muster, Andrei Medvedev e Yevgeny Kafelnikov, até chegar à decisão. Na final, enfrentou o espanhol Sergi Bruguera, bicampeão do torneio, e venceu por 3 sets a 0, conquistando seu primeiro título de Grand Slam.
A vitória projetou Guga internacionalmente e transformou o brasileiro em um dos principais nomes do tênis mundial. Ao longo da carreira, ele conquistou 20 títulos, incluindo mais dois troféus de Roland Garros, em 2000 e 2001.
Em 2000, outro resultado histórico consolidou sua trajetória. Guga venceu a Masters Cup, em Lisboa, derrotando Andre Agassi na decisão, e terminou aquele ano como número 1 do mundo.
Além dos resultados nas quadras, Kuerten também se tornou conhecido pela personalidade carismática e pela proximidade com o público. Meio século depois do nascimento, o catarinense permanece como um dos principais símbolos do esporte brasileiro e uma referência para o tênis nacional.

Foto: Al Bello/All Sport
A importância de Larri Passos
Uma das pessoas que mais acompanharam sua trajetória desde o início é o técnico Larri Passos. A relação entre os dois começou quando Guga ainda era criança e se transformou em uma das parcerias mais importantes do tênis brasileiro.
Larri conheceu Aldo Kuerten, pai de Guga, em 1981, quando trabalhava para a Federação Gaúcha de Tênis. O primeiro contato com o futuro campeão aconteceu pouco depois, durante um encontro organizado pela família. Na época, Guga ainda era um menino.
Anos mais tarde, Aldo pediu a Larri que treinasse seu filho. O treinador conta que assumiu o compromisso e iniciou oficialmente o trabalho com Guga em 1990, quando o catarinense tinha 14 anos. A parceria permaneceu até o encerramento da carreira do tenista, em 2008.
A relação ganhou ainda mais importância após a morte de Aldo, em 1985. Larri passou a ocupar um papel próximo ao de um segundo pai para Guga. Durante o período em que trabalharam juntos, o tenista conquistou os 20 títulos de simples de sua carreira, incluindo os três troféus de Roland Garros.
Entre as lembranças guardadas pelo treinador estão também os momentos fora das quadras. Larri conta que costumava preparar churrascos nos aniversários de Guga e receber os amigos do tenista.
Ao falar sobre os 50 anos do ex-número 1 do mundo, Larri destacou o vínculo construído ao longo de décadas e deixou uma mensagem de carinho ao pupilo. Para ele, a parceria ultrapassou a relação profissional e se transformou em uma ligação familiar.
“Quando penso no pai dele, sempre aparece aquela alegria. Nos torneios, sempre via aquele cara barbudo, e eu com quatro, cinco, às vezes seis jogadores. O Aldo era um cara muito inteligente, ficou uma amizade bacana, houve uma união entre a gente”, disse Larri em entrevista ao Lance.

Larri foi homenageado no Foto: Rosane Bierkman/Divulgação
50 fatos que marcaram a trajetória do campeão
- Kuerten começou a jogar tênis aos seis anos, influenciado pelos pais
- Guga perdeu o pai quando tinha apenas oito anos, durante um torneio de tênis, em 1985. Aldo Amadeu Kuerten trabalhava como juiz de cadeira um jogo de uma competição infanto-juvenil em Curitiba quando sentiu dores no peito. Foi para o hospital e faleceu por conta de uma parada cardíaca
- Aldo, porém, teve imensa influência no futuro de Guga como tenista. Antes de falecer, ele conheceu Larri Passos e praticamente “intimou” o técnico a cuidar da carreira do filho. Larri cumpriu a promessa e passou a treinar o pequeno Gustavo ainda criança
- O início da carreira de Guga teve muito suporte da mãe, Alice, que costumava ligar e mandar cartas para empresas em busca de patrocínio para o filho quando ele ainda não tinha explodido
- Maior tenista do Brasil, Guga também tem paixão por outros esportes, como por exemplo o futebol. Ele é torcedor absolutamente fanático do Avaí e costuma, quando possível, acompanhar jogos na Ressacada
- A trajetória de Gustavo Kuerten não existe sem Larri Passos. Tanto é verdade que ele foi praticamente o único técnico que Guga teve ao longo da carreira profissional. Foram 15 anos de parceria, interrompida rapidamente entre 2005 e 2006, quando o brasileiro passou a trabalhar com o argentino Hernán Gumy
- Guga terminou a carreira com um total de 20 títulos profissionais no circuito de simples da ATP. Os mais relevantes, claro, foram em Roland Garros, onde o tenista foi tricampeão em 1997, 2000 e 2001
- A história em Roland Garros é tão grande que Guga foi campeão no juvenil, ao lado do amigo Nicolás Lapentti
- Dos 20 títulos como simples, apenas três foram em torneios disputados no Brasil: Curitiba em 1996, Costa do Sauípe em 2002 e novamente na Bahia em 2004
- Além dos troféus da chave de simples, Guga também foi campeão de duplas. Foram oito títulos ao todo jogando lado a lado com outros tenistas
- Embora o foco da carreira tenha sido torneios de simples, Guga chegou a ser o número 38 no ranking mundial de duplas, em 1997, no auge da parceria com Fernando Meligeni
- Guga criou um hábito ao longo da vida: presentear o irmão mais novo, Guilherme, com os troféus do torneio que conquistava. O caçula da família Kuerten tinha paralisia cerebral e morreu em novembro de 2007
- A relação com a família era intensa. Além dos troféus de presente a Guilherme, Guga era muito próximo de Rafael, o irmão mais velho e que atuou como seu empresário em praticamente toda a vida
- O primeiro torneio profissional disputado pelo brasileiro foi em abril de 1993, na cidade de Mendoza, na Argentina. Ele começou a trajetória com derrota para o tenista local Gustavo Díaz
- Já a primeira vitória como profissional aconteceu 16 dias depois, em 26 de abril de 1993, contra o também argentino Jose Rafael Godoy
- Em relação aos títulos, o primeiro da carreira foi curiosamente em duplas: o Challenger de Campinas, em 1996. No ano seguinte, ganhou o primeiro troféu de simples, em Curitiba, meses antes de levantar o troféu de Roland Garros
- Dos oito títulos em duplas, cinco foram ao lado de Fernando Meligeni no saibro: Santiago em 1996, Estoril em 1997, Bologna em 1997, Stuttgart em 1997 e Gstaad em 1998
- Guga terminou a carreira sem nunca ganhar um torneio de grama na carreira. Suas conquistas eram basicamente em saibro ou quadras rápidas
- Backhand clássico, que marcou época, foi ideia de Larri Parris, quando Guga ainda era um adolescente
- O título de Roland Garros em 1997 foi conquistado com um uniforme azul e amarelo, que a própria organização do Grand Slam francês era contra. Larri Passos, porém, mentiu e disse que Guga não tinha outra roupa para jogar. Deu certo
- Roland Garros foi o único Grand Slam que Guga conquistou na carreira. Nos outros torneios mais importantes do calendário, chegou às quartas uma vez em Wimbledon (1999), duas vezes no US Open (1999 e 2001), mas nunca passou da terceira rodada no Australian Open
- A conquista de Roland Garros em 1997 teve um fato marcante: Guga venceu os três últimos campeões do torneio, Thomas Muster (95), Yevgeny Kafelnikov (96) e Sergi Bruguera (93/94)
- O primeiro título de Roland Garros deu a Guga uma marca de respeito: foi o jogador de menor ranking a ganhar o torneio. O brasileiro entrou na disputa como número 66 do mundo
- Kafelnikov, por sinal, estaria no seu caminho em outros grandes títulos, como Roland Garros em 2000 e 2001 e também a Masters Cup de 2000
- Guga pode se orgulhar de ser o único tenista da história a vencer duas das maiores lendas em um mesmo torneio. Aconteceu em 2000, quando o brasileiro passou por Pete Sampras na semifinal e por Andre Agassi na grande decisão da Masters Cup disputada em Lisboa
- A conquista do torneio na capital portuguesa garantiu a Kuerten um feito histórico: é até hoje o único brasileiro a ser líder do ranking mundial da ATP. O primeiro lugar foi conquistado em dezembro de 2000 e mantido por várias semanas do ano seguinte
- Guga estreou na Copa Davis em 1996 e conseguiu ajudar o Brasil a alcançar a melhor campanha de sua história. O país foi semifinalista na edição de 2000, quando o tenista vivia o auge da carreira
- O tenista gosta tanto da Copa Davis que uma vez disse que, se pudesse repetir um torneio para jogar, seria este e não Roland Garros
- Apesar de tudo que ganhou no tênis, Gustavo Kuerten jamais esteve perto de conquistar uma medalha olímpica para o Brasil. O máximo que conseguiu foi chegar às quartas de final em Sidney 2000
- Guga chegou a disputar a Olimpíada de Atenas em 2004, mas caiu para o chileno Nicolás Massú logo na estreia. O algoz viria a ganhar o ouro
- Guga completou o chamado “Grand Slam do saibro” em 2000, ao conquistar o título de Hamburgo depois de vencer Roland Garros, Monte Carlo e Roma ao menos uma vez
- Ele nunca perdeu uma final de Grand Slam: ganhou o tri em Roland Garros em 1997 (Sergi Bruguera), 2000 (Magnus Norman) e 2001 (Alex Corretja)
- Seu domínio em Roland Garros é tão grande que poucos ganharam mais títulos do que ele. Só Bjorn Borg e Rafael Nadal o superam. Djokovic também é tri, enquanto Federer ganhou só uma vez
- Por não gostar de jogar na grama, Kuerten chegou a pular Wimbledon em 2001 e 2002. Também não jogou em 2004
- O brasileiro caiu do 1º para o 37º lugar no ranking em 2002, após apresentar os primeiros problemas no quadril que abreviariam sua carreira
- Em Masters Series, são dez finais e cinco títulos: Monte Carlo e Roma em 1999, Hamburgo em 2000, Monte Carlo e Cincinnati em 2001. Foi vice em Montreal 1997, Miami e Roma 2000, Roma 2001 e Indian Wells 2003
- Por ser de outra geração, Guga nunca teve a oportunidade de enfrentar Rafael Nadal ou Novak Djokovic em um torneio profissional. Mas chegou a duelar três vezes com Roger Federer. Uma delas acabou em uma vitória plástica por 3 sets a 0, na edição de 2004 de Roland Garros
- Em toda a carreira, Guga ganhou pouco mais de US$ 14,8 milhões em premiação por títulos e participações em torneios
- O brasileiro encerrou a carreira profissional com 358 vitórias e 195 derrotas
- Ano com mais vitórias na carreira de Guga foi 2001: 60 triunfos espalhados ao longo de toda a temporada
- Kuerten conquistou títulos em 13 países diferentes: Alemanha, Argentina, Brasil, Chile, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, México, Mônaco, Nova Zelândia, Portugal e Rússia
- Guga foi o primeiro tenista não nascido nos Estados Unidos a jogar ao menos uma vez a final de todos os Masters jogados na América do Norte: Indian Wells, Miami, Montreal e Cincinnati
- Organizou uma turnê de despedida em 2008 e participou de cinco torneios: Costa do Sauípe, Masters de Miami, Challenger de Florianópolis, Masters de Monte Carlo e Roland Garros
- Seu último torneio foi, claro, Roland Garros. Em 2008, Guga fechou a história no torneio predileto com derrota por 3 sets a 0 para o francês Paul Henri Mathieu
- Guga nunca demonstrou interesse em ser técnico, mas chegou a ter seu nome sugerido para dirigir Djokovic. A ideia partiu de Fernando Meligeni, amigo e antigo parceiro nos anos 1990 e 2000, mas nunca avançou para uma proposta concreta
- O tenista brasileiro foi incluído no Hall da Fama do tênis em 14 de julho de 2012 e se tornou apenas o segundo brasileiro a receber a honraria. A primeira foi Maria Esther Bueno, em 1978
- Outro grande reconhecimento que recebeu na carreira foi o troféu Philippe Chatrier, reconhecimento máximo a quem competiu e fez história em Roland Garros. O prêmio foi entregue a Guga em junho de 2010
- Principal hobby fora do tênis era surfar. Várias vezes Guga “fugiu” para o Havaí para aproveitar momentos de folga
- Já aposentado, o maior tenista do Brasil recebeu homenagem da Grande Rio, que o elegeu como tema da escola de samba em 2011
- Carregou a tocha olímpica antes dos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016
*Com informações da ESPN

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